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Adágio

Mas o que resta de mais difícil é saber que tu não existirias aqui comigo. Que, por mais que a afinação da corda esticada beirasse o canto do rouxinol, não haveria ouvidos disponíveis para apreciar. Essa nossa afinação, sintonia fina, aprendida e apreendida com o tempo - todo esse tempo tão nosso - e que, enfim, não soa mais alto que o silêncio das tardes tecladas. E o pior é a certeza de que, mesmo que a orquestra tocasse outra música, não dançarias comigo. E saber que os nossos saberes compartilhados jamais versarão juntos pelo limbo das ideias. E encarar o fato de que me queres assim, à distância. Nenhum toque, nenhum olhar. Apenas a imaginação dançando ao sabor de um beijo roubado, distante, em um raro momento no qual as cordas pararam de vibrar. E o mais impróprio é perceber que esse teu não-querer é o que me comove. Cada momento gasto comigo, com essa parte virtual de mim, me dizendo através do vento que me percebes, que me lês tal qual partitura, com olhos treinados, mas...

Ser ou não ser... solitário (parte 2)

(Inspiração by Kadu Lago) Relembrando, a pergunta original foi: “ Será que realmente é impossível ser feliz sozinho???” Falei da solidão, do estar sozinho. Agora é o momento de falar do ser solitário. Ser solitário não é uma condição social, é um estado de espírito. Solitário é aquele que não sente qualquer necessidade do outro. Solitário é aquele que, em termos gerais, se basta. Ele pode ter ou não amigos, parentes, amantes. Não importa, pois essas figuras são, de certa forma, descartáveis. Pessoas que passam por sua vida não deixam marcar mais do que momentâneas, se é que deixam alguma marca. E a saudade ou a dor o atingem mais até do que às pessoas comuns, sociáveis. Todavia, mesmo com toda a intensidade de um relâmpago cortando o céu, esses sentimentos são rápidos, acabam rápido. Abalam muito, mas passam! E o que fica é a força renovada de um ser auto-suficiente, indiferente. Indiferença. Essa é a acusação recorrente do mundo ao solitário de alma. Alguém ne...

Ser ou não ser... solitário (parte 1)

(Inspiração by Kadu Lago) A pergunta original foi: “ Será que realmente é impossível ser feliz sozinho???” Tenho que começar por Schopenhauer. “ Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre”. Estar sozinho e ser solitário são coisas absolutamente distintas. Sim, vou explicar. Aguentem. Solidão é estar sozinho, sem a companhia de outro ser, pensante ou não. Solidão é o que sentimos quando conversamos com as panelas e sorrimos para a novela. Muito necessária essa condição para colocar as ideias em ordem, o trabalho em dia ou a louça no lugar. Contudo, depois do período de acertos internos, vem a sensação de que ninguém nos ama. É quando queremos trocar bobagens verbais, ou apenas uma companhia pra assistir tv. A maioria de nós consegue suprir essa necessidade do outro no convívio trivial com a família, com amigos, par romântico, estra...

A Tríplice da Morte

Pensem por um momento. Se a máxima fosse verdadeira, fatalista. Se, de fato, escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore fossem os três passos obrigatórios rumo ao falecimento. Se nós só pudéssemos morrer ante o cumprimento das três etapas. Se não adiantasse velhice, doença ou suicídio. O mundo, com certeza, seria diferente. Teríamos muito menos árvores. Leríamos livros muito mais raros. Crianças, nós as teríamos às pencas, como é. Pois que se pode fugir à morte, não ao orgasmo. Resultado inevitável. Oxigênio poluído, cultura escassa, superpopulação. Algo de semelhante nessa supra-realidade? Via das dúvidas, não pretendo plantar árvore alguma antes dos meus 80 anos...

A Resposta

Não importa para qual pergunta, para qual mal, para qual escolha. A resposta está sim, sempre, SEMPRE, dentro de nós. Acessar essa informação é a parte difícil. Por vezes, precisamos de ajuda. Mesmo que a resposta esteja ali dentro da mente, precisamos de ajuda para vê-la, tão sutil ela pode parecer. Esse auxílio bem-vindo pode ser de um amigo que nos sacuda, de uma atitude que tomam contra ou a favor de nós, de um profissional especializado em rastrear essas verdades que guardamos, de bolinhas coloridas que vêm em francos com tarja preta... Não importa. O importante é encontrar a resposta. E tenha certeza, se você realmente estiver disposto e souber como procurar, vai encontrá-la. Não se arrependa depois, pois a porta da loucura é sempre mais colorida...

Perdida

Estou – com certeza, estou – perdida. Quando há muito a escrever, é porque nada há. E eu tenho escrito demais. É possível escrever demais? É como pensar demais. É possível não pensar? E é quando eu digo: Sim, é! Cale-se, cérebro! ... Ainda estou ouvindo. Ainda estou perdida. Com certeza, estou perdida.

Medo de Quê?

Já escrevi sobre o medo antes. Parece um tema recorrente. Será que ainda não me livrei de todos? Certo, é uma pergunta retórica. Contudo, também é uma mentira. Não vim falar de medo, vim falar do oposto dele. Qual é o contrário de medo? Não, não é coragem. Coragem é aquilo que a gente usa pra ir adiante, pra tomar a frente, um rumo. Mas... e quando chegamos lá? Como se chama o sentimento quando tudo pelo que lutamos começa, finalmente, a acontecer? Devagar, bem lentamente, as peças vão se encaixando, a figura tomando forma sobre a mesa. Schopenhauer (adoro ele!) diz que “ a glória deve ser conquistada; a honra, por sua vez, basta que não seja perdida”. Honra e glória, as duas palavras que movem o mundo. Mente quem diz que solidariedade e altruísmo são mais importantes. Socialmente, são mais relevantes. Todavia, não conheço ninguém que não goste ou não se aproveite da fama. Mesmo os ermitões mais reclusos em suas cavernas úmidas aproveitam-se da publicidade a respeito deles para contin...