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Perdas e Danos

É preciso perder pedaços! É preciso que coisas ruins aconteçam, e arranquem partes dispensáveis para abrir espaço às coisas boas... É preciso que haja dor antes de haver sorrisos... E, acima de tudo, apesar de tudo, é preciso continuar sorrindo. Apesar do peso nos ombros, da sujeira na pele, da vergonha por trás dos olhos, é preciso erguer o queixo e esboçar aquele belo sorriso nos lábios – mesmo feridos. Hematomas? Escondemos com corretivo. Pena não haver corretivo para a alma. E vem a pergunta definitiva. Pra que continuar tentando? Um desencadear de desamor por si mesmo é tudo o que se consegue nesse apanhar constante. Que recompensas esperamos depois de tudo? Por que insistir se a falha é tão óbvia? Nenhum alento dura o suficiente para tirar do paladar o fel corrosivo. Aquele abraço nunca está disponível quando precisamos de proteção. Cada um cuida de si. Não se pode pedir para que cuidem de nós. Não se pode almejar conforto da existência. Dramaticidade? É, tal...

Difícil Tarefa da Não-Vitimização

Tiraram-me de mim por um momento. Posso dizer que me vi de fora... ou de dentro. Por dentro. Não sei ao certo. Nada sei ainda. Talvez não descubra nunca. O que é certo é o fato. O ato. A exatidão da dor. Dor física, dor psicológica. A medida do sofrimento é proporcional à paralisia da alma... Não é raiva, é tristeza... Diz a teoria que toda mulher é vítima ou se faz de. Que toda fêmea se sente inferiorizada diante da constatação do simples desejo do macho. Sim, estou falando de tesão. Concordando ou não com essa teoria, é certo que muitas de nós pensam assim mesmo. Que somos as vítimas indefesas diante da força bruta masculina. Vemos a nós mesmas como objetos, bibelôs. Surtamos quando constatamos que aquele príncipe encantado só queria transar. Como se nós não quiséssemos... Contudo, diante da demonstração de violência, seja no corpo, seja na mente, a tendência é que nos encolhamos, que nos tornemos quase que as culpada da brutalização. Quantas de nós sofrem abusos e s...

Primeira Derrota (IV)

Derrota é uma palavra forte. Todavia, nenhuma outra há para substituí-la na situação. Esforço pelo ralo, peso na consciência, sensação de perder a guerra... O interessante foi a plena sapiência do cerne da questão. Sim, entendi antes de acontecer. E deixei acontecer por pura experimentação científica. E eu estava certa... A conclusão do experimento é que a NOSSA MENTE é nossa PIOR INIMIGA!!!!! Cuidado com ela! Assim em maiúsculo mesmo... Só pra reforçar a afirmativa. Quando se decide mudar hábitos longos, por pequenos que sejam, há de se levar em conta a constância desse hábito e suas repercussões mentais. Por exemplo, se você come um doce toda noite antes de dormir, o doce cortado pode te fazer ter insônia e estragar todo o dia seguinte. Por quê? Pelo simples fato de que a mente está acostumada ao doce. Experimente tratar sua mente como uma entidade viva e separada, com vontade própria. Incrível o que conseguimos descobrir sobre hábitos e fugas dessa maneira. Ainda n...

Abandono (III)

Meu pecado é a preguiça. Meu álibi é a inconstância. Escondo-me por detrás de muros bem caiados, grafitados de imagens fortes, cores intensas. Mas o fato é que me escondo. O fato é o engodo. Mais fácil ocultar meus defeitos sob véus dourados a abandonar hábitos cruéis. Muito mais fácil, eu digo. Abandonar suportes psicológicos pode ser tarefa árdua, indizível. Surpreendente constatação de que, às vezes, só falta vontade. Só pela preguiça não nos modificamos. E acreditamos que seja assim, que sejamos isso, que não queremos mudar. Mentira das mentiras que mentimos a nós mesmos. Mentira que minto a mim. Por mais que doa abrir os olhos a cada amanhecer, por mais cruel que seja esse espelho de todo dia, há ainda maior crueldade no turvar próprio da visão. Mais vale a vertigem da transformação do que a inércia mortuária. Faltam forças, sobram lágrimas. É real, contudo, o despertar que vem desse trânsito de Vênus. Abramos os olhos, escancaremos o peito, ergamos queixos e elev...

Sentido de Urgência (II)

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O sentido de urgência explode no plexo. Sensação ruim, pressão, ansiedade. O corpo reage antecipadamente, a mente grita enclausurada na vontade. A vontade é tudo! Cada célula viva se rebela, se torna inimiga da consciência. Nada se alterou de fato – ainda –, mas o terror já toma conta. Tudo muda. A vontade é a Lei! Sucumbir ao grito de socorro é o erro fatal. Fatalidade é engodo, desculpa. Nada se faz sem a força interna, sem intento. Em uma existência plenamente mundana, regada a prazeres e excessos, há que se querer intensamente quando da premissa da mudança. A mudança requer dor. É preciso sacrificar algo. Enquanto a razão aplaude, louva o privilégio da libertação e assume a novidade como dádiva de aprimoramento, curtos circuitos acontecem em cada átomo. O corpo ainda grita. E grita cada vez mais alto. Berra muito antes de qualquer atitude. Porque ele “sabe” que a dor virá. E o novo sempre assusta. Os monstros internos todos acordados, formando um exército, uma barr...

Através da Vidraça (I)

Estou em rota de colisão comigo mesma. Em pleno processo de despedida. Luto fechado, mortalha completa. Sou a supernova que explodirá a qualquer instante. A dinamite de pavio aceso. Sou a cobaia de minha própria experiência. A transformação latente, esperando o relâmpago. Sou meu monstro criado. Sinistro esse rumor surdo da voz interna. Ameaçador esse silêncio ao meu redor, apesar dos barulhos do mundo. Por muito tempo, vi a mim pela janela, através da vidraça. Agora, ergo a pedra apertada na mão e miro a transparência que estilhaça. Ergo a cortina, atravesso a redoma, venço a couraça. Sou medo e agonia nesse momento. A coragem tão presente me abandona à mercê da sombra. Essa névoa que vai se dissipando me mostra algo que ainda não sei se quero ver. Um novo rosto, o mesmo rosto. Uma nova estrada sem qualquer das bengalas tão bem-vindas, dos amparos familiares tão confortantes. Mas nada mudou ainda. Só minha imagem se altera diante da realidade. A primeira mudança é ace...

O Ninho das Águias

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Alça voo tal errante a ave de rapina faminta. Alça outro flanar em pleno ar, elevar latente, intermitente, em busca de sangue fresco. Sobrevoa ravina, deserto, rochedo. Plana, leve e mortal, o pássaro caçador. Presa é qualquer vida que se mova, lá embaixo, no reino terrestre. Sim, pois que o reino da águia é o azul pleno do céu. Mal sabe essa ave imponente que outra igual a ela alça o mesmo voo, oposta e oponente, do pico longínquo e fora do olhar. Essa outra, grande e forte, um macho dominante nos domínios do ar. Caçador infalível, sedento, belo e viril, violento, vai de encontro ao alvo ainda incauto, ainda oculto. Sobre a pedra órfã, sobre o pico alto da montanha mais distante, as duas águias caçadoras se deparam, se confrontam. Olhos nos olhos, força medida. A fêmea absoluta, o macho dominador. E voam um ao redor do outro, estudando minúcias, analisando malícias... e decidem pousar, juntas, as águias, sobre o pico mais alto. Ali, um ninho abandonado, oculto, se faz...