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O Gostar-se

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Noite. Calma. Harmonicamente, minha consciência desliza por sobre a pele que é minha, meu véu, meu corpo... Intensa, etérea, sinto-me em pleno existir. Estou aqui. Sou dona de mim mesma. Quem me visse, acharia fácil esse interesse adquirido por minha própria pessoa, esse gostar íntimo. Fácil apegar-se à personalidade, aos arroubos de melodrama, aos afãs quase insensatos de criatividade, de soberba. Não saberia, esse que observa, que cada passo até o topo foi em dor, em fogo, em pranto. Não encontraria em meu rosto qualquer marca de denúncia do flagelo, qualquer cicatriz. Não acharia motivo de tristeza, mas ele existe. Ou existiu, ao longo dos feitos gloriosos que represento agora, hoje. Quem espia apenas pela fresta do brilho jamais verá a verdadeira face da tragédia, ou mesmo os grilhões rompidos sob extremo esforço. Não conhecerá a face da fera que doutrinei e domei sem matar. Essa luta foi só minha e me lembro dela, de tudo, todos os dias. Lentamente, o cadafals...

Coração Pirata

Uma música ouvida durante anos e anos... e, de repente você se toca que ela não significa exatamente o que diz. Resultado e significado são grandezas díspares. E você entende que ouvia o que queria ouvir, que existia sonoramente numa redoma cristalina de autoexultação, de utopia. Um bom exemplo disso são esses quatro versos tão fortes, embalados por vozes canoras. Essa música em especial diz exatamente assim: “Faço porque quero! Estou sempre com a razão! Eu jamais me desespero! Sou dono do meu coração!” Quatro mentiras confortáveis, nada mais que isso. Fazer porque se quer – qualquer coisa – é a máxima do poder da juventude. No melhor estilo “eu sou o rei do mundo”, “eu posso tudo”. Amadurecer é também a compreensão de que isso é impossível. As coisas que fazemos, as fazemos por dever, por obrigação, pela vida – a nossa e a de outros. Claro que há escolhas, mas elas são turvas, nunca realmente nossas. Nunca dependem apenas da nossa vontade. Estar sempre com a razão é u...

Sacrifício

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Tempo de perder, de desfazer-se. Tempo de deixar ir. Desistir, como dizia Caio, é ainda assim um gesto de coragem. Ou de puro desacato ao ego. Que seja... há de existir para sempre e em cada sempre o derradeiro momento da partida. Partir-se ao meio, rasgar-se para que aquele peso chamado esperança saia do peito sem que possamos impedir. O tempo da utopia já passou. É preciso sacrificar algo. Que seja o orgulho a ser jogado no fosso. Que seja a soberba o pecado a ser santificado pelo fogo da expiação. A força - tanta força, tanto esforço - de nada serve. A forca nada mais é do que um pedaço inerte de corda. O pescoço apertado nela é o que importa. O tempo é de desapego, de entrega. Tempos de morte. Necessário contradizer a insensatez, imprescindível dar ouvidos ao destino, ao fato inevitável, ao fracasso. Ceder ao poder do que é mais forte que nós, maior que nossa vontade, que nosso sonhar tão errante e alucinadamente lúdico. Esse que acredita em fadas, em milagres, em livr...

Dormência

Não escuto, não vejo, não sinto...? Me dei conta agora mesmo... faz tanto tempo que não ouço música. Nenhuma de minhas favoritas. Nenhuma das outras. Música nenhuma. Um espaço vazio e silencioso aqui debaixo da pele. Um quase buraco negro, uma anã marrom... pesada, fria, invisível. Invisibilidade é o que me causa a falta de música. Porque a sonoridade, mesmo não sendo a minha arte, me acompanha na intenção artística. Em língua de gente, eu crio com música, eu me sinto bem com música. A pergunta é, porque então faz tanto tempo que estou em silêncio? Eu sei a resposta. A resposta vai e volta. Chega, se assenta e amortece o meu entorno. Ocupa o lugar da música, da arte... ocupa todos os espaços, se esparrama e me ocupa os sentidos. Aí, de repente, surta, se estressa, some. E quando a resposta vai embora, a música volta. E com a música, volta a criação, a criatividade, a sensação de reencontro com algo que estava aqui, mas estava perdido. Tantas vezes esse vai e volta, tan...

Déjà Vu

Vou usar desse espaço para tocar no assunto que pretendo, pois é opinião minha, minha história refletida. E esse blog é um espaço meu... talvez, o único. Faço parte de uma comunidade do Facebook que se intitula, sem dar nomes, de "ajuda" a escritores. Acabei de ver, nesse grupo de mais de 8 mil membros, uma rigorosa atrocidade. Uma garota de 11 anos postou, inocentemente, a sinopse de sua primeira história. Nada infantil, nada aleatória, como se poderia esperar. Ao contrário, pareceu (a mim) de muita confiança e estímulo. Pois bem, ela pediu opiniões sobre a sinopse. Ao longo de 30 comentários (até o momento que escrevo), uma enxurrada de críticas e generalizações que inibiriam até um literato de renome e anos de trajetória. Quase nada de construtivo foi dito, tirando uns poucos posts, apenas pontos ruins foram levantados (e inventados!) pelos comentaristas.  Mesmo depois que ela disse a idade, em vez de incentivo, recebeu piadas e pitacos obtusos de vários por l...

Minha Mãe - Parte 3

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Estou pulando eventos, é claro. Isso não é um diário de mim. Falo de coisas marcantes e, por vezes, posso até me perder nas linhas do tempo... Lembro de meu avô Araby e sua capa de exército... lembro das rapaduras feitas no taxo por minha avó Rodhe. Os pastéis da Dadada... o pé de caqui no quintal (ou pátio, como a gente chama aqui no sul). Lembro do vô José e sua passividade contagiante. E lembro que eu fui a única a “tocar” aquele violino. Lembro da vó Adir... sem comentários sobre ela, só mais tarde. O que interessa é que fui crescendo num ambiente de brigas e rusgas. Aprendi a brigar bem! Ninguém me ganha numa discussão! Quando meus pais se separaram, pra mim foi normal, foi bom. Não tive traumas nem fiquei com sequelas... sou a típica filha de divorciados, independente e arredia. Nesse processo, duas pessoas cruzaram o meu caminho (eu tinha 6 anos). Duas figura muito distintas e com papéis incrivelmente diferentes. Vou parar aqui pra fazer um apontamento! A Madrasta!!...

Minha Mãe - Parte 2

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Talvez eu devesse começar pelo começo... eu nasci 18 meses após minha mãe e meu pai se casarem (com véu, grinalda e tudo)... Naquela época, não havia ultrassom nem fralda descartável. Minha mãe sofreu um aborto espontâneo aos 3 meses de gravidez. Ao ir ao médico (ainda bem que foi), descobriu que ainda estava grávida... era eu. Sou persistente. Nasci. De cara, meu pai abandonou o leito conjugal e passou a dormir no quarto do meu tio e padrinho (solteiro que esse era na época). Ele não gostava de choro de criança. Começamos bem, meu pai e eu... Enfim... fui crescendo... Minha primeira lembrança, a mais antiga, é de minha avó e minha tia (a Dadada, pra quem teve o desprazer de conhecer!). Essas duas efetivamente cuidavam de mim... Bom, o que eu sei – o que pude deduzir – é que minha mãe não foi talhada para ser mãe. Tipo, trocar fraldas, passar noites em claro, amamentar e padecer no paraíso. Eu sei porque fiz tudo isso! E amei fazer, sinto saudade, caso alguém pergunte. ...