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Sou Velha

Dia desses, mandaram me dizer que eu sou velha. E eu concordo em todas as instâncias. Vejam, não me disseram que "estou" velha, mas que "sou" velha. O que implica uma diferença significativa. No meu julgamento, a declaração não tem a ver com idade. Tem, sim, uma tentativa de ofensa que, em verdade, é verdade! “Ser” velho significa finalmente absorver os ímpetos de juventude, os arroubos de aventura e os sonhos megalômanos de um futuro esplêndido. Significa uma calma que só os que são velhos têm, significa encarar o tempo passivamente, como se fôssemos, eu e o tempo, velhos amigos jogando xadrez. “Estar” velho é sentir-se menos jovem, é a contagem de anos pesando sobre as articulações e a ânsia dolorosa de querer voltar no tempo. Desses males, fora a lei da impiedosa gravidade, não sofro nenhum. Não choro pelos perdidos ímpetos de juventude porque jamais os perdi. Ainda invento mundos fictícios e brinco com amigos imaginários, ainda visto-me de pers...

Meu Novo Amor

Meu novo amor deve ter cabelos escuros e olhos intensos. Deve olhar-me como quem contempla uma obra de arte renascentista. Deve ostentar aquele brilho que só para mim será visível. Deve ver além de mim, de meu corpo, minha alma. Não lhe abro mão da boca bem desenhada, de sorriso fácil e covinhas que a barba esconde. Esse novo amor deve dizer nos lábios sem palavras a plenitude de seus sentires. E sonhar em suspiros, arfar em ânsias, resfolegar quereres. Ah, sim, e não menosprezar Caetano. Meu novo amor não deve ter cor nem credo. Crendices à parte, devo ser eu sua divindade. A face da deusa em meu próprio rosto e dele a seiva que gera a si mesmo em deus consorte. Que a lenda do inverno e da colheita se unam num mesmo sacrifício. Nosso sacrifício, morrendo-nos nos braços um do outro. Meu novo amor há de ser sereno, carinhoso e terno. Há de ser selvagem, vigoroso, eterno. Há de ser, esse meu novo amor, reflexo de Marte e Mercúrio. Médico dos males de meu espírit...

Ciúmes

Vi um pequeno lampejo de ciúmes nos olhos dele. Ganhei o dia, o mês, o ano! Medíocre é a mão que alimenta o ego. Essa fagulha insensata de soberba infinita. Mas assim é o existir humano. E eu que sou nada mais do que dimensional... gostei! Vi aqueles olhos negros saírem da zona de sombra e o sorriso trincar a face sinistra num misto de deboche e cólera. “Quer brincar comigo?”, me dizia aquele sorriso mudo. “Tem certeza?”, os olhos faiscantes ecoavam. “Talvez eu queira.”, respondeu meu ímpeto. Mas, calei meus lábios. Nada disse que ele já não soubesse. E o que eu disse, as entrelinhas engoliram. Eu tinha feito a Esfinge rosnar! Isso, por si só, já era o bastante! A mente analítica lembrou do Belo ameaçador e o uniu ao relato etéreo, literato. Fez-se a chama que incendiou o espírito tão equilibrado. Pronto. O que eu via naqueles olhos neutros era tudo, menos apatia. Ele reagia, embora as palavras comedissem. Eu quase via a mente maquinando e a adrenalina a dar choques no plexo....

Goza!

Goza! Aproveita que o teu corpo é tudo o que eu quero agora. Aproveita que a minha pele sua, sôfrega pela tua. Aproveita que todos os meus sentidos te desejam além do que o desejo poderia declarar. Goza desse fogo que te aquece cada poro. Deixa que esse frenesi te embote a astúcia e tu sejas apenas meu objeto de prazer. Sejas meu enquanto tu ainda podes. Antecipa o afago leve, o arfar crescente, o gemido escapado da garganta estreitada pelo fogo da vontade. Deita o teu corpo sobre o meu e deixa o peso da luxúria embalar os nossos pecados em comum. Deleita-te com essas carícias que te dou porque sou soberba. Deixa a cobiça aplacar a ira e tornar tua volúpia em ondas de prazer aqui dentro de mim. Deixa que a sublimação do meu orgasmo domine o teu orgasmo. E goza pleno de tato, sabor e ilusões dessa ótica que só nós dois podemos ver. Goza, porque o teu gozo é a minha extravagância mais plena. Minha batalha ganha e vencida. Porque sucumbo ao mesmo tempo que a vitória em mim de...

Aborto!

Sempre que eu penso no assunto maternidade, eu, inevitavelmente, lembro da minha mãe. E, inevitavelmente, eu penso: por que ela não me amava? Não que ela não me amasse de fato. Mas ela não me amou como devia. Nem perto disso. Ah, como se deve amar a um filho? Onde está a fórmula? Ótima pergunta, e eu respondo. Ame, só isso. Ame sem restrições, sem imposições, ame incondicionalmente. Mas, se você é mãe, eu não preciso dizer, pois você já faz isso naturalmente. Já ama seu filho ou filha com TODAS as forças, mais que a você mesma. Isso é ser mãe! Ser mãe é proteger, cuidar, alimentar, ensinar. Tudo isso é muito cansativo, mas nos dá um prazer imenso. Um filho é a sublimação da vida de qualquer mulher. Qualquer mulher que queira realmente ser humana e completa. A maternidade nos dá sentido à vida. Se alguém disser que não, ou é homem, ou está mentindo, ou não é mãe. Mas, há momentos em que tudo dá errado, acontece sem querer, sem planejar. Há momentos que nos levam a de...

Primeira Catarse

Estou bem. Estou sempre bem. E nunca estou bem. Na média, ninguém nota nada. Procuro não incomodar. Chato aquele amigo chato que vive chateando os outros, pedindo abrigo, asilo, colo, conselho. É chato. Então, não faço. Mas, faço. Veladamente, espero que alguém note que eu preciso de alguém. Não, eu não estou mendigando romance. Nem romantizando a atenção alheia. Fico bem sempre que posso. Hoje, não posso. Ficar bem é relativamente incerto. Sorrio, mas não estou sorrindo. Não choro, mas estou aos prantos. Algum lugar dentro de mim está chorando. Só não sei qual. Se for soletrar e juntar sílabas, diria apenas que estou triste. Penso que se parar de pensar, tudo para, tudo passa. Ao passo que o tempo passa por cima da ausência e para essa coisa ruim na boca do estômago. O tempo cura tudo e tudo se cura depois de um tempo. Ou quase isso. Mas, não se importe agora com o meu hoje, porque amanhã serei eu como sempre. E sorrirei sem estar sorrindo. E você não verá as lágrimas que...

Crônica sobre mim mesma!

Passei dos 40 anos. Passei direto, fiz muito. Foram quatro décadas intensas, creiam. Ganhei prêmios de cinema, criei campanhas publicitárias internacionais, escrevi romances que fizeram chorar. Sim, eu me fiz viver nesses mais de 40 anos. Mais... Não ouse perguntar quantos mais!!! Uma dama nunca revela a idade. Mas, já que não sou nenhuma dama, exponho os fatos pra que quiser saber! Nasci em épocas de regime militar. A sombra da polícia da repressão pairando sobre mim. Obviamente, eu me tornaria revolucionária. Outra sombra que me pairava era a da alienação. Obviamente, eu me tornaria engajada. Vocês recriminam? Nunca fui pobre, no sentido literal. Se eu queria aquilo, ganhava dois... Mimada? Nunca! Sei o valor real e subliminar de uma calça jeans. Meus pais nunca tiveram essa conscientização. Nunca conquistaram a liberdade plena de expressão. Pena deles... Quando me vi gente, a ditadura havia acabado. E loucos de cabelos espetados gritavam “Boys don’t cry”... Eu não s...