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Pacto

Me apaixono por você toda semana. Todo encontro. Uma vez por mês. Tipo isso. Mesmo que você não mereça ou nem ligue. É como uma dependência, uma química. Talvez seja quase um vício. Daquelas coisas que a gente faz e não tem muita explicação. Só faz bem. E nem tão bem, um deleite momentâneo, passageiro, um agrado. Depois desse tempo todo, já nem sinto a sua falta. Só quando você está perto. E é aí, ao alcance da mão, que o coração lembra de gostar de você acima de qualquer afeto, de qualquer merecimento. É quando a boca tem saudade do beijo, da barba arranhando a pele. Acho que é desejo e só. Mas se fosse só desejo, se explicaria a plenitude que eu sinto ao te ver dormir? Sim, você já sabe de tudo isso. Tem plena consciência desse meu carinho dependente. E não se importa, eu sei. Não posso exigir mais atenção, não posso querer foto de casal na internet, ou passeios de mãos dadas. Nada tenho de você além de amizade e desejo. E nisso, somos parceiros. Culpa sua? Você é o inse...

O espelho me disse...

Desde tenra idade, costumava (e costumo ainda) ouvir certa canção de um grupo pra lá de antigo! Música de força, com eu denomino, música que dá aquela injeção de ânimo, de vigor e de jovialidade! Música que nos bota lá no alto, nós e nosso ego! Hoje, porém... agora mesmo... ouvindo outra vez essa mesma música, a ficha caiu. Compreendi que a letra da bela canção nada mais é do que a verdade absurda, a realidade salgada, estapeando a minha cara de trouxa... a música não é de força, é de resignação, de repreensão, de lástima. Tantos anos, décadas, escutando aquelas palavras rimadas, cadenciadas ao ritmo forte, achando que o mundo era meu. E era exatamente o oposto. Não é de vitórias que a letra fala, não é de minha habilidade natural de ressurgir das cinzas. A letra fala outra coisa... A frase mais forte, mais idolatrada, aquela que mais me representava, diz apenas que não sou diferente, que não sou melhor, que continuo a mesma pessoa que precisa se refugiar em uma música par...

Sou Velha

Dia desses, mandaram me dizer que eu sou velha. E eu concordo em todas as instâncias. Vejam, não me disseram que "estou" velha, mas que "sou" velha. O que implica uma diferença significativa. No meu julgamento, a declaração não tem a ver com idade. Tem, sim, uma tentativa de ofensa que, em verdade, é verdade! “Ser” velho significa finalmente absorver os ímpetos de juventude, os arroubos de aventura e os sonhos megalômanos de um futuro esplêndido. Significa uma calma que só os que são velhos têm, significa encarar o tempo passivamente, como se fôssemos, eu e o tempo, velhos amigos jogando xadrez. “Estar” velho é sentir-se menos jovem, é a contagem de anos pesando sobre as articulações e a ânsia dolorosa de querer voltar no tempo. Desses males, fora a lei da impiedosa gravidade, não sofro nenhum. Não choro pelos perdidos ímpetos de juventude porque jamais os perdi. Ainda invento mundos fictícios e brinco com amigos imaginários, ainda visto-me de pers...

Meu Novo Amor

Meu novo amor deve ter cabelos escuros e olhos intensos. Deve olhar-me como quem contempla uma obra de arte renascentista. Deve ostentar aquele brilho que só para mim será visível. Deve ver além de mim, de meu corpo, minha alma. Não lhe abro mão da boca bem desenhada, de sorriso fácil e covinhas que a barba esconde. Esse novo amor deve dizer nos lábios sem palavras a plenitude de seus sentires. E sonhar em suspiros, arfar em ânsias, resfolegar quereres. Ah, sim, e não menosprezar Caetano. Meu novo amor não deve ter cor nem credo. Crendices à parte, devo ser eu sua divindade. A face da deusa em meu próprio rosto e dele a seiva que gera a si mesmo em deus consorte. Que a lenda do inverno e da colheita se unam num mesmo sacrifício. Nosso sacrifício, morrendo-nos nos braços um do outro. Meu novo amor há de ser sereno, carinhoso e terno. Há de ser selvagem, vigoroso, eterno. Há de ser, esse meu novo amor, reflexo de Marte e Mercúrio. Médico dos males de meu espírit...

Ciúmes

Vi um pequeno lampejo de ciúmes nos olhos dele. Ganhei o dia, o mês, o ano! Medíocre é a mão que alimenta o ego. Essa fagulha insensata de soberba infinita. Mas assim é o existir humano. E eu que sou nada mais do que dimensional... gostei! Vi aqueles olhos negros saírem da zona de sombra e o sorriso trincar a face sinistra num misto de deboche e cólera. “Quer brincar comigo?”, me dizia aquele sorriso mudo. “Tem certeza?”, os olhos faiscantes ecoavam. “Talvez eu queira.”, respondeu meu ímpeto. Mas, calei meus lábios. Nada disse que ele já não soubesse. E o que eu disse, as entrelinhas engoliram. Eu tinha feito a Esfinge rosnar! Isso, por si só, já era o bastante! A mente analítica lembrou do Belo ameaçador e o uniu ao relato etéreo, literato. Fez-se a chama que incendiou o espírito tão equilibrado. Pronto. O que eu via naqueles olhos neutros era tudo, menos apatia. Ele reagia, embora as palavras comedissem. Eu quase via a mente maquinando e a adrenalina a dar choques no plexo....

Goza!

Goza! Aproveita que o teu corpo é tudo o que eu quero agora. Aproveita que a minha pele sua, sôfrega pela tua. Aproveita que todos os meus sentidos te desejam além do que o desejo poderia declarar. Goza desse fogo que te aquece cada poro. Deixa que esse frenesi te embote a astúcia e tu sejas apenas meu objeto de prazer. Sejas meu enquanto tu ainda podes. Antecipa o afago leve, o arfar crescente, o gemido escapado da garganta estreitada pelo fogo da vontade. Deita o teu corpo sobre o meu e deixa o peso da luxúria embalar os nossos pecados em comum. Deleita-te com essas carícias que te dou porque sou soberba. Deixa a cobiça aplacar a ira e tornar tua volúpia em ondas de prazer aqui dentro de mim. Deixa que a sublimação do meu orgasmo domine o teu orgasmo. E goza pleno de tato, sabor e ilusões dessa ótica que só nós dois podemos ver. Goza, porque o teu gozo é a minha extravagância mais plena. Minha batalha ganha e vencida. Porque sucumbo ao mesmo tempo que a vitória em mim de...

Aborto!

Sempre que eu penso no assunto maternidade, eu, inevitavelmente, lembro da minha mãe. E, inevitavelmente, eu penso: por que ela não me amava? Não que ela não me amasse de fato. Mas ela não me amou como devia. Nem perto disso. Ah, como se deve amar a um filho? Onde está a fórmula? Ótima pergunta, e eu respondo. Ame, só isso. Ame sem restrições, sem imposições, ame incondicionalmente. Mas, se você é mãe, eu não preciso dizer, pois você já faz isso naturalmente. Já ama seu filho ou filha com TODAS as forças, mais que a você mesma. Isso é ser mãe! Ser mãe é proteger, cuidar, alimentar, ensinar. Tudo isso é muito cansativo, mas nos dá um prazer imenso. Um filho é a sublimação da vida de qualquer mulher. Qualquer mulher que queira realmente ser humana e completa. A maternidade nos dá sentido à vida. Se alguém disser que não, ou é homem, ou está mentindo, ou não é mãe. Mas, há momentos em que tudo dá errado, acontece sem querer, sem planejar. Há momentos que nos levam a de...