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Carta ao Cosmo

Desde muito jovem, eu acalento um sonho no fundo da mente. Não sei se tive esse sonho ou se foi ele quem me teve. Só sei que uma das lembranças mais antigas que tenho de mim mesma é uma criança colando recortes em uma folha de almaço e “criando” um jornal. Um pouco mais tarde, depois que aprendi a ler, meus momentos favoritos eram as horas em que ouvia e copiava histórias lidas por minha avó, pequenos contos de uma cartilha pré-escolar. Ela lia, eu escrevia. Já um tanto mais velha, os livros passaram a oferecer uma espécie de fuga da realidade. Eram romances românticos, impróprios mesmo para minha pouca idade. Ainda assim, estavam ali pela casa e eu os lia. Quanto à necessidade de fuga, a palavra atual é mais bonita do que a explicação. Bullying. A fase crítica da adolescência foi marcada por desastres sociais, introspecção e pelas revistas periódicas do Círculo do Livro. Foi assim que o primeiro romance de fantasia caiu em minhas mãos. Ainda tenho na estante os quatro exemplare...

Monólogos

Eu ando triste. Apesar de tudo em seu lugar, ando triste. Apesar da cadência controlada dos dias e dos rituais domésticos e suas competências bem estruturadas, ando triste. E na busca desesperada por conforto, recolho-me aos pensamentos, aos devaneios que me afastam da realidade asfixiante. Me invento. Em minha mente torpe, tudo é possível, tudo viável. Nesta em que me moldo tão abruptamente, não vejo a máscara que me assombra do espelho. Tornei-me, no mundo real, uma desfigurada, meu rosto é uma carranca entalhada em carvalho decrépito, com a ruga constante de preocupação fazendo encontrar as sobrancelhas. Não gosto da imagem, é feia. Por isso, fecho os olhos quando quero ver a mim. E no meu mundo imaginário sou livre, sou bela e sorridente. No delírio do abraço e da paixão, sou amada e toda a solidão que me rodeia não existe. Simples como aconchegar-se a um cobertor num dia frio, simples como ler um livro – sim, eu gosto de Djavan! –, faço-me aquela que quero ser. E embalo-m...

Tem horas

Tem horas que eu queria só um peito para recostar a fronte. Poder pender meus terrores ao conforto do pulsar de outro coração. Fechar meus olhos e ter a testa amparada por outra força, outra posse, outra coragem. E ancorar, nem que por um ínfimo segundo, no porto seguro além de mim mesma. Tem horas que eu adoraria a mão alheia espalmada num afago em meu rosto, um carinho simples, fugaz, descompromissado. Deixar suspiros escaparem aliviando a pressão. Ter somente a leveza do toque a sustentar essa alma cansada que tanto pesa, que tanto pena, que escora o fardo que sou eu. Tem horas que eu daria tudo por um olhar intenso e silencioso. Pelo privilégio de poder ver-me em outras retinas, dessas que me enxergassem inteira. Que me vissem sem máscaras, sem máculas, sem roupa. Um olhar que me dissesse tudo e me fizesse todas as juras. Que jurasse me assistir além de mim. Tem horas que eu me contentaria com o sorriso, o colo, o abraço. Eu me satisfaria facilmente com qualquer minúscu...

A febre do artista

Há momentos em que eu invejo a placidez das pessoas comuns, daqueles indivíduos ordinários e sequenciais que, mediocremente, levam suas vidas dia após dia da mesma forma e modelo. Invejo a paz que o não-viver traz a essas pessoas. Invejo o ordenamento constante do cotidiano sem solavancos. Todo artista tem em si a febre do mais-além. São criaturas miseráveis que jamais se contentam com o cadenciamento dos dias normais, dos meses iguais, dos anos constantes. Artistas são incontentáveis por natureza. Nada, absolutamente nada, os satisfaz por mais que poucos instantes. Nem as mais bravas conquistas ou os sonhos mais difíceis de realizar são álibi para parar sua busca. Felicidade é matéria tão volátil quanto a satisfação. Sim, eu sou artista. Artista da invulgar, magnânima e rompante arte da escrita. Diferente de meros mortais causais, minhas vidas – sim, são várias – entremeiam-se de aventura, romance, dor, sofrimento, fantasia, ação, mistério, drama e de tudo mais que não cabe na ...

Marionetes

Cansei de desfazer, cansei de refazer. Cansei de procurar, meu bebê. Hoje me pego só recolhendo os cacos que, porventura, desgrudam da face esfacelada e caem no chão. Vamos voltar ao tempo da poesia, então. Vamos fugir para o mundo da fantasia. Que tal? Lá onde eu e você possamos ser qualquer anjo, qualquer monstro, nós mesmos. Acontece que também perdi a habilidade de abrir o portal por trás do espelho mágico. Você ainda a tem? Todas as regras e normas que enraizaram em mim me tornaram menos luminosa. E você sabe que só esse brilho do pó das fadas faz a roda funcionar. Engrenagens emperram quando não são usadas. Uma lástima isso. Agora, todas aquelas máscaras que vestimos ao longo dos anos incontáveis parecem ter-se fundido. Já não é possível tirar. Não é possível despir. Nossa nudez já não é fantástica, já não cativa nem encanta. Incrível como ficamos assim, tão engessados. Nos deixamos moldar. Bonecos de cordas cujas cordas não se movem por pura falta de mãos a conduzi-las. M...

Retrospectiva

Queria um pouquinho mais de ti. Queria um pouquinho mais de mim. Queria um pouco mais do mesmo. O tempo de espera é desperdício de ato, é desperdício de fato, é fatídico. O tempo que espera o tempo, que espera o beijo, que espera o pouco. Um pouquinho de espera que espera o que não vem. Queria a urgência do amor bandido do Cazuza na voz da Cássia Eller. Queria reter o tempo perdido de Renato. Conter o tempo, traçar a tempo a linha que divide o ontem e o agora. O retrospecto que não salva o ponto exato na linha do tempo, que não lembra que a memória deleta sem possibilidade de recuperação. Queria recordar apenas em linhas felizes, linhas reta, relevantes. Linhas livres de haveres, de espera parada, de inércia mofada. Queria estabelecer o ponto de corte. Cortar o filme, o capítulo, e começar o futuro do ponto exato do beijo que se perdeu no asfalto. Quebrar o tempo velho e renovar o pouco que sobrou. Quem sabe, assim, reinventando o novo como se fosse outro passado, reciclando ...

Simulacro e estereótipo das relações

Da série Análises da Busca - Teoria da Solidão Crônica 2 Mesmo quando renegamos nossa original necessidade de grupo, mesmo quando nos julgamos independentes e autossuficientes perante o mundo em que vivemos, mesmo que nossas conquistas e posição social nos pareçam capazes de suprir qualquer necessidade de contato, pecamos pela busca por aprovação. Quem nos aprova, nos endossa, são os outros, a sociedade ao nosso redor. Nutrimos, mesmo que veladamente, a obrigação de integralidade nos grupos nos quais nos inserimos. Tendemos a nos aliar a nossos iguais. Essa contradição coabita conosco desde que simulamos essa forma de vida independente e apartada. O simulacro de individualidade que projetamos serve para que tenhamos a sensação de superioridade. Se não precisamos de ninguém, somos magnânimos. Se somos os melhores, lideramos. Outra vez o lapso egóico do líder. Para liderar, deve haver seguidores. Para comandar, devem existir comandados. Se estamos em uma tropa de um só homem, ...