Uma música ouvida durante anos e anos... e, de repente você se toca que ela não significa exatamente o que diz. Resultado e significado são grandezas díspares. E você entende que ouvia o que queria ouvir, que existia sonoramente numa redoma cristalina de autoexultação, de utopia. Um bom exemplo disso são esses quatro versos tão fortes, embalados por vozes canoras. Essa música em especial diz exatamente assim: “Faço porque quero! Estou sempre com a razão! Eu jamais me desespero! Sou dono do meu coração!” Quatro mentiras confortáveis, nada mais que isso. Fazer porque se quer – qualquer coisa – é a máxima do poder da juventude. No melhor estilo “eu sou o rei do mundo”, “eu posso tudo”. Amadurecer é também a compreensão de que isso é impossível. As coisas que fazemos, as fazemos por dever, por obrigação, pela vida – a nossa e a de outros. Claro que há escolhas, mas elas são turvas, nunca realmente nossas. Nunca dependem apenas da nossa vontade. Estar sempre com a razão é u...
Tempo de perder, de desfazer-se. Tempo de deixar ir. Desistir, como dizia Caio, é ainda assim um gesto de coragem. Ou de puro desacato ao ego. Que seja... há de existir para sempre e em cada sempre o derradeiro momento da partida. Partir-se ao meio, rasgar-se para que aquele peso chamado esperança saia do peito sem que possamos impedir. O tempo da utopia já passou. É preciso sacrificar algo. Que seja o orgulho a ser jogado no fosso. Que seja a soberba o pecado a ser santificado pelo fogo da expiação. A força - tanta força, tanto esforço - de nada serve. A forca nada mais é do que um pedaço inerte de corda. O pescoço apertado nela é o que importa. O tempo é de desapego, de entrega. Tempos de morte. Necessário contradizer a insensatez, imprescindível dar ouvidos ao destino, ao fato inevitável, ao fracasso. Ceder ao poder do que é mais forte que nós, maior que nossa vontade, que nosso sonhar tão errante e alucinadamente lúdico. Esse que acredita em fadas, em milagres, em livr...
Não sou suicida. Nunca penso em me matar. Mas, talvez, devesse. Acabar com tudo. Uma morte prevista e controlada. Meu estado de espírito é, por vezes, um território inóspito e árido, com suas pedras despencando de encostas muito íngremes e se despedaçando no chão poeirento. Sempre – quase sempre – solitário e sem vida. Todavia, nesse terreno arenoso e silente, há um pôr-do-sol alaranjado constante. Não, não é noite, é crepúsculo. E é sentada a admirar o poente purpúreo que esqueço de morrer. Algo em mim insiste em tentar viver por mais um dia. Algo me empurra adiante, ciente da força de minhas pernas e do avançar como um comando interno, eterno. Meus passos pesam, mas estou acostumada. Tenho força o suficiente para andar por mim mesma. Embora perceba que de nada adianta tamanho vigor de vez em quando. Persistindo em alavancar um pé na frente do outro de novo e de novo, joelhos firmes, olhos no horizonte, me pego pensando “Para quê? Onde estou indo?”. Minha sombra é a única co...
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