domingo, 10 de agosto de 2014

Coração Pirata



Uma música ouvida durante anos e anos... e, de repente você se toca que ela não significa exatamente o que diz. Resultado e significado são grandezas díspares. E você entende que ouvia o que queria ouvir, que existia sonoramente numa redoma cristalina de autoexultação, de utopia.

Um bom exemplo disso são esses quatro versos tão fortes, embalados por vozes canoras. Essa música em especial diz exatamente assim: “Faço porque quero! Estou sempre com a razão! Eu jamais me desespero! Sou dono do meu coração!” Quatro mentiras confortáveis, nada mais que isso.

Fazer porque se quer – qualquer coisa – é a máxima do poder da juventude. No melhor estilo “eu sou o rei do mundo”, “eu posso tudo”. Amadurecer é também a compreensão de que isso é impossível. As coisas que fazemos, as fazemos por dever, por obrigação, pela vida – a nossa e a de outros. Claro que há escolhas, mas elas são turvas, nunca realmente nossas. Nunca dependem apenas da nossa vontade.

Estar sempre com a razão é uma forma bacana de você afirmar que é inflexível e fechado a opiniões alheias. Ou seja, é ruim. Quem acha que está sempre certo, já começa errando. Outro equívoco pueril.

Jamais se desesperar é inumano. As possibilidades e os motivos aí estão todos os dias pra nos lembrar de que o desespero é iminente! Qualquer falha, perda, despedida... e a sensação de chão se abrindo nos alcança de maneira imensurável. Desespero é coisa de quem sabe que a vida não é fácil... coisa de velho, eu diria.

Ser dono do próprio coração é frase de quem nunca se apaixonou. Porque, quando o amor acontece, perdemos bem mais do que a capacidade de raciocínio lógico. Perdemos parte de nossa alma, daquela porção mais profunda de nós mesmos. E isso não se recupera. Nunca.

Enfim, a dita música culmina em um “Ah, o espelho me disse: você não mudou”... como quem diz “apesar de tudo, ainda sou o mesmo”. Levanta a mão quem saiu ileso de qualquer dessas quatro estrofes. Levanta a mão quem fez o que queria sem ressalvas (e não quebrou a cara), quem está sempre certo em todas as circunstâncias, quem nunca se desesperou por nada, quem jamais amou a ponto de se perder de si.

Levante sua mão e eu lhe direi “o espelho diz que você não viveu ainda”. Bem vindo, jovem. Eu lamento. Esse é o mundo real!

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