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Sobre escrever errado

Não encaro numa boa a onda-modinha atual de “deixa disso” em torno da escrita capenga. Não vou condenar alguém que escreve errado em redes sociais, porque são mil variáveis nesse cálculo. Mas, eu vou, sim, berrar quando essa pessoa resolve que é “escritor/a”.
Em “escritor”, vou enquadrar também todos aqueles e aquelas que se comunicam através de palavras ditas/escritas (porque os roteiristas e quadrinistas e blogueiros e youtubers também são comunicadores). Mas, falo particularmente aos contistas, romancistas, resenhistas e etc.
Vamos às analogias (óbvias) que vocês tanto apreciam: Quando você manda fazer uma roupa em um atelier de costura, você não sai de lá com a roupa toda torta, pontos soltando e botões desencontrados dizendo “Ah, pelo menos a pessoa tá costurando!”. Você não sai feliz e contente, postando estrelinhas, de um restaurante no qual o/a chef queima a comida e troca o sal pelo açúcar. Chega de analogias.
Escrita é uma profissão, gente. Um mínimo de cuidado a criatura que e…

Despedida

Sinto que é hora de parar, de encerrar um ciclo que me fez feliz por tantos anos, mas que já não reverbera. E quando aquilo que a gente ama para de fazer sentido, é preciso chorar, ruminar a dor da perda e deixar ir.
Baseei minha existência na ânsia da literatura por décadas. Fiz o que pude, fiz coisas de que me orgulho. Mesmo assim, perco meu lugar de fala, minha visão de mundo envelhece e não se renova diante do inevitável desgaste das gerações.
Não vejo mais a sublime expectativa, o sorriso já não me brota ao ponto final de um novo manuscrito. Ao contrário, a tristeza cada vez consome mais minha já parca índole guerreira. Estou cansada demais para continuar. 
Talvez, de todas as mortes em mim, essa seja a mais dolente, a mais sangrada. Afinal, não sei fazer mais nada além de escrita. E se já não faço isso de alma, o render-se é um ato de salvação, não de fraqueza. Não sou mártir, jamais tive essa verve em mim. 
Ainda tenho muito a fazer para me deixar desmanchar por esse epílogo. …

Covardia

(essa tem dono e ele vai ver, tenho certeza)
Deixar de tentar, dar o primeiro passo e recuar, essa é a métrica do covarde. É um repetir constante de tentar mais uma vez e não sair do lugar, chegar a arquitetar o plano e falhar por medo – puro e absoluto medo – de colocá-lo em prática. É treinar para a maratona e não correr quando o tiro dá a largada. Para esses, o único prêmio é a derrota. Única e repetitiva derrocada – frustração, remorso, vergonha! –, porque é isso que o fraco merece. Sempre o último lugar ou lugar nenhum.
Se a vontade, o desejo, a beleza da conquista ou o triunfo da recompensa não são maiores ou mais brilhantes do que o medo da tentativa, então nada vale a pena. Melhor e mais fácil – eu diria mais seguro, porque conforta – esquecer de vez! Melhor abrir mão, fingir que nem viu, que nem conhece. Melhor mesmo cessar a procura. Tratar o objeto do desejo ou a linha de chegada como um mero amigo imaginário que só existe mesmo ali, dentro da cabeça.
Melhor desistir. Bas…

Carta ao Cosmo

Desde muito jovem, eu acalento um sonho no fundo da mente. Não sei se tive esse sonho ou se foi ele quem me teve. Só sei que uma das lembranças mais antigas que tenho de mim mesma é uma criança colando recortes em uma folha de almaço e “criando” um jornal. Um pouco mais tarde, depois que aprendi a ler, meus momentos favoritos eram as horas em que ouvia e copiava histórias lidas por minha avó, pequenos contos de uma cartilha pré-escolar. Ela lia, eu escrevia.

Já um tanto mais velha, os livros passaram a oferecer uma espécie de fuga da realidade. Eram romances românticos, impróprios mesmo para minha pouca idade. Ainda assim, estavam ali pela casa e eu os lia. Quanto à necessidade de fuga, a palavra atual é mais bonita do que a explicação. Bullying. A fase crítica da adolescência foi marcada por desastres sociais, introspecção e pelas revistas periódicas do Círculo do Livro. Foi assim que o primeiro romance de fantasia caiu em minhas mãos.
Ainda tenho na estante os quatro exemplares ama…

Monólogos

Eu ando triste. Apesar de tudo em seu lugar, ando triste. Apesar da cadência controlada dos dias e dos rituais domésticos e suas competências bem estruturadas, ando triste. E na busca desesperada por conforto, recolho-me aos pensamentos, aos devaneios que me afastam da realidade asfixiante. Me invento.
Em minha mente torpe, tudo é possível, tudo viável. Nesta em que me moldo tão abruptamente, não vejo a máscara que me assombra do espelho. Tornei-me, no mundo real, uma desfigurada, meu rosto é uma carranca entalhada em carvalho decrépito, com a ruga constante de preocupação fazendo encontrar as sobrancelhas. Não gosto da imagem, é feia.
Por isso, fecho os olhos quando quero ver a mim. E no meu mundo imaginário sou livre, sou bela e sorridente. No delírio do abraço e da paixão, sou amada e toda a solidão que me rodeia não existe. Simples como aconchegar-se a um cobertor num dia frio, simples como ler um livro – sim, eu gosto de Djavan! –, faço-me aquela que quero ser. E embalo-me nesse…

Tem horas

Tem horas que eu queria só um peito para recostar a fronte. Poder pender meus terrores ao conforto do pulsar de outro coração. Fechar meus olhos e ter a testa amparada por outra força, outra posse, outra coragem. E ancorar, nem que por um ínfimo segundo, no porto seguro além de mim mesma.
Tem horas que eu adoraria a mão alheia espalmada num afago em meu rosto, um carinho simples, fugaz, descompromissado. Deixar suspiros escaparem aliviando a pressão. Ter somente a leveza do toque a sustentar essa alma cansada que tanto pesa, que tanto pena, que escora o fardo que sou eu.
Tem horas que eu daria tudo por um olhar intenso e silencioso. Pelo privilégio de poder ver-me em outras retinas, dessas que me enxergassem inteira. Que me vissem sem máscaras, sem máculas, sem roupa. Um olhar que me dissesse tudo e me fizesse todas as juras. Que jurasse me assistir além de mim.
Tem horas que eu me contentaria com o sorriso, o colo, o abraço. Eu me satisfaria facilmente com qualquer minúscula tentati…

A febre do artista

Há momentos em que eu invejo a placidez das pessoas comuns, daqueles indivíduos ordinários e sequenciais que, mediocremente, levam suas vidas dia após dia da mesma forma e modelo. Invejo a paz que o não-viver traz a essas pessoas. Invejo o ordenamento constante do cotidiano sem solavancos.

Todo artista tem em si a febre do mais-além. São criaturas miseráveis que jamais se contentam com o cadenciamento dos dias normais, dos meses iguais, dos anos constantes. Artistas são incontentáveis por natureza. Nada, absolutamente nada, os satisfaz por mais que poucos instantes. Nem as mais bravas conquistas ou os sonhos mais difíceis de realizar são álibi para parar sua busca. Felicidade é matéria tão volátil quanto a satisfação.

Sim, eu sou artista. Artista da invulgar, magnânima e rompante arte da escrita. Diferente de meros mortais causais, minhas vidas – sim, são várias – entremeiam-se de aventura, romance, dor, sofrimento, fantasia, ação, mistério, drama e de tudo mais que não cabe na caixa…