sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Adágio

Mas o que resta de mais difícil é saber que tu não existirias aqui comigo. Que, por mais que a afinação da corda esticada beirasse o canto do rouxinol, não haveria ouvidos disponíveis para apreciar. Essa nossa afinação, sintonia fina, aprendida e apreendida com o tempo - todo esse tempo tão nosso - e que, enfim, não soa mais alto que o silêncio das tardes tecladas.

E o pior é a certeza de que, mesmo que a orquestra tocasse outra música, não dançarias comigo. E saber que os nossos saberes compartilhados jamais versarão juntos pelo limbo das ideias. E encarar o fato de que me queres assim, à distância. Nenhum toque, nenhum olhar. Apenas a imaginação dançando ao sabor de um beijo roubado, distante, em um raro momento no qual as cordas pararam de vibrar.

E o mais impróprio é perceber que esse teu não-querer é o que me comove. Cada momento gasto comigo, com essa parte virtual de mim, me dizendo através do vento que me percebes, que me lês tal qual partitura, com olhos treinados, mas distraídos. Mais que atenção, deleite. Mais que carícias, carinho.

Mesmo assim, a consciência de não executar qualquer melodia pela tua mão me entristece. Mais ainda porque, mesmo que eu fosse única e una, tu ainda irias preferir ser um solo e não um dueto.

Um comentário:

Filipe Severo disse...
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