sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

In(exata)Existência


Não vou mentir. Às vezes, sinto que não existo. Apesar de todo esforço social, de toda exposição, toda falta de pudores. Talvez, eu tenha mesmo nascido invisível. Ou, quem sabe, vibro em alguma outra frequência. Mas o fato é irremediável. Preciso de esforço constante para que me percebam.

Enfadonha tarefa esta, de forçar-se aos olhos dos outros. Um mísero segundo de descuido, de descanso, e as caras já se voltam para outra direção. É como se não houvesse ninguém ali. E esse ninguém sou eu, aos berros. Lastimável empenho jogado no lixo.

Penso que perco muito tempo tentando me fazer notar. Se ao menos um par de olhos, qualquer par, sorrisse de volta. Mas, não. A invisibilidade é torturante. Falo para que ninguém responda, respondo para que ignorem. Todo um jogo de aparições fantasmagóricas e irrelevantes, na maioria.

Já tentei a simpatia, o descaso, a agressividade, a eloquência. Funciona por um certo período e depois tudo volta ao vazio natural da indiferença. Vejo que as pessoas não falam comigo espontaneamente. Tenho eu que impelir a interação. É, mais ou menos, como xingar a voz eletrônica de um tele-atendimento qualquer. Inútil.

Existência e visibilidade andam de mãos dadas. Absurda a necessidade de interagir. Obtusa, seria mais apropriado dizer. Pois, tenho certeza de que existo. E sentir-se inexistente pela simples desconsideração alheia é bitolar-se ao que pensam os outros. Esses mesmos outros que me não-veem. Não-ver é um ato vergonhoso, envergonhador. A boa educação manda que sejamos agradáveis e cordiais. Mas, quem leva em conta o que a educação manda nesse novo existir de avatares e conversas seguras por trás de telas planas?

Contudo, ainda tenho que considerar a hipótese de que, quem sabe, eu realmente não exista. Que esta que escreve seja o espectro do que eu gostaria de ser. Que eu seja, enfim, um personagem de mim mesma. Pois que a única chance que tenho é de ser vista em letras. O único momento mágico no qual eu mesma me percebo é sobre o papel – eletrônico ou não. E a única vez em que existo de verdade é quando me leem. Como agora! Mas, já acabou.

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