domingo, 3 de abril de 2011

A Boca


A boca daquela criatura era de tal forma perfeita, que palavra não havia que a descrevesse por completo. Puro deleite dos deuses aqueles lábios desenhados a sangue. Cada ranhura de pele que formava sulcos finos e ressecados que formavam veios que sumiam numa curva repentina. E lá vinha a língua umedecer as ranhuras, umedecer meus sentidos.

Ah, aquela boca reta, de ângulos duros. A depressão do segredo dos anjos a dividir a linha superior num arremedo de coração. A generosa porção rósea que se avolumava logo abaixo, quase não cabendo em si de voluptuosidade. O tal suculento lábio inferior.

Beijar aquela boca, meu Deus, se pudesse. E nem quisera tanto, apenas mirá-la assim de tão perto. Permitir-me, quem sabe, tocá-la delicadamente, quase sem tocar, com as pontas dos dedos, aquela boca de sonho. Sonho com ela. Aquela boca perfeita.

Como é possível uma simples boca abalar-me tanto? Ah, mas eu bem sei. É que não é uma boca simples. É complexa, generosa, idealizada. Idealizo minha língua naquela língua, minha pobre boca naquela boca maravilhosa. Quem dera! Serão tão doces aqueles lábios quase rubros, quase pálidos, quase febre? Será real toda aquela perfeição, ou só existirá no devanear de minha mente desejosa?

Por vezes, se cobre com a mão que surge para abreviar o sorriso, o repuxar dos lábios, o revelar dos dentes, das gengivas, das salivas. Por vezes, curva-se como que para o choro, faz beicinho, aperta-se entre dentes, mordisca-se. Tudo para arrancar de mim abalos suspirosos de irreversível arrebatar.

Ah, aquela boca. Minha fosse, talvez não suportasse. E morreria meu coração emotivo no ínfimo vislumbre do beijo jamais dado. Morreria para beijar-lhe, aquela boca feita de perfeição.

Um comentário:

Ricardo disse...

Mermão, que boca catártica essa tua.