quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Vazio e o Verbo


No princípio, ele se sentiu como Deus. Tudo era verbo e falar era possível. Ninguém mais para terminar as frases por ele. Ninguém a interromper seus raciocínios como se já os soubesse de antemão. Ninguém a criticar comentários ou a ignorar opiniões. Estava livre, podia falar sozinho o quanto quisesse. Finalmente!

No segundo dia, ele cantarolou pelos espaços que se preenchiam, como se criasse terras e dividisse mares. Cantou desafinado, errado, entoou hinos dos times que nem gostava. O sorriso aberto enquanto móveis e tapetes e almofadas surgiam no novo mundo. E ele viu, satisfeito, que aquilo era bom.

Depois do ato de criação, sentou-se entre outros deuses como ele, todos falastrões e sorridentes. E a conversa se estendeu por horas e copos a fio. Ao fim da noite, nem a língua nem o cérebro conseguiam formular mais nada minimamente coerente. Assim terminou o terceiro dia.

Após a ressaca, sentou-se confortavelmente em seu trono-poltrona, de cuecas, com o controle-remoto na mão. O cetro dourado repleto de botões e de canais era todo seu. Xingou cada cena e cada frase da odiosa novela. Assistiu o capítulo todo só para poder insultar, gargalhando a cada impropério. Pulou aleatoriamente de programa em programa. Feliz da vida porque voz nenhuma o mandava sair dali. Ele era seu próprio rei. Terminou roncando na poltrona, com o pescoço torto. 

Passou assim aquele princípio, aquela semana. Ao final de tudo, calou-se. Não cantarolou, não praguejou, não arrotou alto e até tomou banho e vestiu cuecas limpas por sua própria opção. Não ligou a televisão, nada havia para ver que lhe valesse o esforço. Ficou quieto no sétimo dia, e não achou nada bom. O silêncio oprimia, deprimia. Chegou a sentir certa falta das interrupções de frases, das retaliações, das ordens atiradas à face. 

Pegou o telefone, discou, esperou. Ensaiava em pensamento. Diria que só ligava para saber como estava ela, as crianças, o cachorro. Se precisavam de algo. Era mentira. Tinha saudades da voz dela. Quando ninguém atendeu, ele ficou infeliz. A sala tranquila, a quietude a pairar por seu reino particular. Que tédio aquilo, não ter com quem conversar.

Um comentário:

dolfomachado disse...

Tocante, como não poderia deixar de ser, vindo de tuas mãos!
Obrigado por esta linda reflexão sobre valores.
Beijos mil!