domingo, 7 de agosto de 2011

Consciências

Rapidamente, ela percebeu que era descartável. Ou que as pessoas ao redor eram descartáveis. Meros decalques num álbum de figurinhas incompleto. Tudo bem, não foi tão rapidamente assim. Foi preciso um dia em especial, uma noite em especial. Uma única noite de sábado na qual ela estava livre. Livre de gritos, de manhas, de brinquedos, de obrigações. Quatro anos depois, uma noite sem sua filha em casa. Naquela mísera noite, ela podia sair, viver. Quem sabe, trazer um corpo para aqueles lençois estéreis. Afinal, não era feia, não era velha. Era uma mulher na plena consciência de si mesma.

Todavia, quando tentou conseguir companhia  - inofensiva - para a noite de sábado, a companhia daqueles e daquelas que se diziam amigos e que, por isso, deveriam dividir um prato, um copo, um riso... ninguém apareceu.

Nada, como se ela não existisse como se aqueles mesmos que desfrutavam sua casa, meses antes, não a conhecessem. E foi quando ela se deu conta de que não tinha amigos.

Amigos são pessoas que estão presentes, seja na festa ou na melancolia. Seja na docilidade ou na depressão. Amigos são aqueles que estão lá quando se precisa. E não havia nenhum. Muitos conhecidos. Nenhum amigo. Depois de algumas horas tentando sair de casa, chegou à conclusão de que estava realmente sozinha.

Um parêntese cabe aqui. Era uma mulher independente, autodefensiva, bem resolvida. Forte como nenhum macho conseguiria ser. Entretanto... a fragilidade se mostrava em forma de abandono. Forte demais para qualquer aproximação verdadeira, quem sabe.

E, nesse momento, lembrou dos amigos de verdade. Cada um deles mais distante que o outro. Aqueles com quem podia contar. Aqueles que sempre estavam lá quando ela chamava, quando tinha vontade de chorar... Uma palavra de conforto, um sorriso em forma de emoticom... Aqueles eram amigos de fato. E estavam todos tão longe... tão longe que só se podiam alcançar por um clique... Virtuais, quase imaginários, aqueles que a amavam de fato. 

E, quase naquele mesmo momento, sentiu saudades dele. Aquele que podia ser mais do que amigo. Que poderia ser o homem ideal.

Ideal! E eles eram quase iguais em tantas coisas. Machistas, ele e ela. Idealistas, caçadores, solitários. Amantes das boas coisas, dos corpos jovens. Ele era a versão masculina dela.  Poderia ser o homem da sua vida. Poderia ter sido.

Foi também quando ela se deu conta de que continuaria assim, sozinha. Quando aquele que era a personificação de seus sonhos, era nada mais, nada menos, do que um amigo gay da internet... Para onde correr depois disso? Para onde fugir, se esconder? Como se esconder de si mesma? Como, senão deitando toda a angústia do conhecimento sobre o papel branco?

Foi quando o gato veio brincar com a caneta, morder o caderno, deitar displicente na mão que escrevia, como quem diz: “Não precisa disso. Eu estou aqui. Eu amo você.” E ela entendeu. Talvez, fosse a hora de mudar de estilo, de amigos, de estado! A hora de mudar de ares. Estar mais perto dele, fisicamente. E isso seria tão bom...

2 comentários:

kadulago disse...

muito bom texto... parabéns, amiga querida. sinta-se abraçada.

RJr disse...

Lindo Giselle..lindamente triste! Essa idéia de 'descartável' não nos passa pela cabeça..mas às vezes nos surpreendemos como ela é possível e dolorida. Adorei o texto! Beijão