sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Poesia



Já dizia o poeta que amor é fogo que arde sem se ver... Queria ser um pouco Camões nesses momentos de lucidez. O delirar da pena manchando de tinta o papel avulso. Compromissado apenas com o próprio criar onírico... Mas, quem sou eu para tal comparação?...

Um grão minúsculo de areia é o que sou, comparada à vastidão de praias do poetizar... Nunca fui poetiza de fato. Sou só alguém que verte palavras sem muito sentido. Carentes de significado. Dando-se significância além da conta. Tudo que tenho é o sonhar...

Lúdico sonho lúcido, doce saborear dos devaneios... Cabe, em parte, em mim, esse rejuvenescer da poesia. Cabe em minha mente o mágico mundo das estrofes cadenciadas. Contudo, não me atreverei a rimar, já que a métrica desmanda de minhas linhas. Já que a fonte de meus versos se esvai tal qual fumaça no vento...

Instante eterno esse da fumaça alcançando o espaço e se desfazendo, se despedaçando. Desintegrando como os sentimentos que vagam por mim. Ou será que basta a brasa acesa do cigarro para que a essência do sentir retorne? Ou o primeiro gole de vinho, talvez...

Antes que a embriaguez alcance as frases no papel, devo concentrar o pensamento. Antes que esse último cigarro se queime em cinzas, devo decidir se desisto ou se persisto no poema. Esse, inacabado, inextinguível. Esse que envenena a imaginação. Devo cerrar meus olhos e deixar que esse rosto se vá...?

Nem em mil anos conseguiria tal feito. Minha sina é jamais arrancar a inspiração da mente pensante e recrudescente que insiste, martirizada, em tornar a musa real. Eis porque não sou Camões... Não sei polir o soneto. Não sei abandonar a pequena lira de Erato. Não sei esquecer aqueles olhos...

Olhares mortais que já não são para mim. Eu, que morro sozinha no afã do lirismo inapto. Tão insolente que sou ao proclamar-me trovadora, literata... Tão insignificante que sou diante do poder do olhar que reescreve minha parca criação... Que recria minha saudade, minha solidão... Enfim, me refaz em rimas.

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