domingo, 24 de março de 2013

Devo Lhe Dizer



Quanto tempo passou desde que conversamos pela última vê, não é mesmo? Quantas coisas já aconteceram, quanta água rolou debaixo da ponte. As pessoas ainda perguntam como eu estou. Eu estou bem. É verdade. Tento responder sempre com o sorriso mais espontâneo, para que sorriam de volta e relaxem, evitando mais perguntas tão inúteis assim.

Mas devo lhe dizer que estou realmente bem. Não precisa se preocupar comigo. Tenho tomado, ultimamente, minhas próprias decisões. Decido acordar e sair da cama todos os dias. Decido usar outras roupas – andei gastando dinheiro nisso – que não aquele uniforme doméstico que você conhece tão bem. Tenho tomado a decisão de me enfeitar um pouco, emagrecer, comprar sapatos. Salto alto, acredite! Tenho até me decidido a me achar mais bonita no espelho.

Essas minhas decisões podem parecer pouco sérias, mas estão ajudando muito. Tenho cuidado da casa com mais afeto. Tenho me dado passeios ao ar livre de presente. Pensei em começar academia, pensei em parar de fumar. Todavia, essas são transformações grandes demais ainda. Com o tempo, com o estímulo certo, quem sabe.

Devo dizer que passei a dar valor às pequenas coisas. Os dias nublados ainda me entristecem, mas as manhãs de sol já me fazem sorrir outra vez. Embora as noites estejam sempre mais frias, estou lidando com isso também. Já durmo uma noite completa, já não acordo procurando por você. A televisão ligada faz companhia, sempre foi assim, afinal. Ainda não gosto do escuro, apesar de não ter mais medo dele.

Ando falando mais. Ando falando sozinha. E nesses diálogos solitários, devo lhe dizer que converso com você. Digo coisas que deveria ter dito ao vivo. É um exorcismo diário, eu quero crer. Agindo assim, meio malucamente, sinto que mando alguns fantasmas embora. Mas, não fique preocupado, não pretendo tornar essas conversas reais. Realmente não gostaria de ouvir suas respostas. Fique tranquilo.

Tenho me dado outras chances de ver o meu dia a dia com outros olhos. Tenho dado oportunidades a mim mesma, e até tenho me forçado a ir a lugares, sair sem companhia, aproveitar da ausência para estar mais comigo. E não é só isso. Tenho encontrado gente diferente, rostos novos. Acho até que fiz alguns amigos. Não recordava o quanto é divertido conversar sobre assuntos que não me lembram nós dois.

Sim, tenho saído com algumas pessoas também. Não estou procurando substituir você. Tanto porque você já não está aqui para ser substituído. O fato é que, em algumas vezes, eu me sinto bem com essa atenção alheia. Não creio que deixe de procurar seu rosto nessas novas companhias. Pelo menos, não agora. Mas já consigo ver melhor a mim. E acho até que posso voltar a ser uma pessoa interessante, caso me permita de verdad.

Enfim, depois de tanto tempo, devo lhe dizer que estou bem, sim. A saudade ainda pesa, a solidão ainda dói. Faz falta não ter mais ninguém de que cuidar, senão eu. Mas estou bem. Descobri o quanto sou forte e o quanto anda tenho de firmeza de espírito, de motivação. Está tudo meio amortecido, mas venho exercitando esses músculos mentais a cada novo dia. Sim, eu vou ficar bem. Vou sobreviver – a despeito do que todos, inclusive eu, pensavam – sem você na minha vida.

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