domingo, 13 de abril de 2014

Lágrima Ácida

Já não há na alma sulco tão fundo. Não há abismo mais negro, veneno tão mortal. Já não há no peito dor tão lancinante. Não há noite mais sinistra, ferida tão podre. E a tal mal irremediável, alguns inocentes aprendem a chamam amor.

Amar é o incendiar eterno dos sentidos. E esse queimar é doloroso. Camões já escreveu. Mas ele estava errado quando disse “não se sente”. Não há possibilidade de passar pelo amor sem sofrer, sem derramar sangue das veias dilaceradas.

Mesmo que tudo pareça com a pérola perfeita da ostra, o brilho que nos vai aos olhos vem do aço afiado das garras das fúrias. Enlouquecemos, mesmo que calmamente, e entregamo-nos a uma felicidade que não existe, a não ser em nossa vontade.

Algo será, algo haverá e o lindo brilho da adaga perfurará o coração, o orgulho, a verdade. Maculada a aura sublime, o que restará deste dito amor? Eu respondo. Resta aflição, angústia, ansiedade, insegurança. Resta dor.

E por mais que ainda se ame – pois o coração e a mente são estúpidos –, o ferimento infectado de traição lateja e arde. Cabe ao ser dilacerado engolir ou verter a lágrima ácida da desilusão, da perda da confiança. No outro e em si.

Todavia, ainda que estraçalhe a capacidade de perdoar, ainda que a amargura inunde cada poro e cada célula... mesmo que todos os átomos gritem por expiação, ele continua lá. O amor. Como uma infecção virulenta que termina por prostrar-nos de joelhos.

Sim, existe a mágoa. E essa custa a se exterminar. Resta a dúvida eterna. Sobra inconformismo, desconfiança, ciúme. Mas ainda nos domina essa necessidade do outro. Do objeto do amor, aquele que nos trai, que nos machuca.

Resta-nos aquele que, mesmo sem querer, faz de nós a mais triste das criaturas. A mais humilhada, a mais infeliz... a não ser quando ele está por perto. Pois é quando a droga age. É quando o amor volta. E nos entorpece... e amamos sem dar atenção ao que dói.

Somos meros peões nas mãos desse sentimento mesquinho e vil. Esse que une dois desiguais e os faz mais do que amantes, os faz um. E é tanto sofrimento que vem... mas vale tanto a pena simplesmente olhar nos olhos dele e dizer (ou esperar ouvir) um simples “eu te amo”. 

Um comentário:

Lhê Almeida disse...

Para mim, o amor é a capacidade humana de justificar... É isso.