quinta-feira, 20 de março de 2014

Temporais

Vozes velozes agitam as ventanias. Enquanto isso, o raio vibra no punho de Zeus, pronto a eletrificar o chão. O carro de Hélio não cruza o manto de Nut. Sobre os cúmulos densos e escurecidos, ouvem-se os cascos das montarias das Valquírias. Haverá heróis mortos e será preciso resgatá-los do solo sangrento.

A tormenta se aproxima. Assustadora e violenta, vem arrasar a valentia de qualquer mortal. E os mais bravos correm e se escondem com medo do vento que murmura, lamenta, canta sua canção funesta. As velhas despejam sua ladainha de sortilégios na tentativa de afastar a força do tempo.

Nada adianta, todavia. Cada qual sabe que é preciso cautela. Até os mais jovens e impetuosos se encolherão sob suas camas, apavorados. Cascatas descerão do céu e arrastarão palha e pedra. As Fúrias estarão soltas, nenhuma culpa passará impune ao julgamento de Anúbis.

E só depois da tormenta satisfeita o sol voltará a brilhar. Só depois de devorar a vida da terra a fome das águas deixará o azul voltar e o disco de Aton iluminar os que se salvaram do desastre. E tudo em torno retornará ao termo. Os valentes sairão dos catres, renovados e envaidecidos.


Foi só mais um temporal! 

Um comentário:

Jorge Ampuero disse...

Certera prosa, un placer leerte.

Besos.